Velocidade não basta: o que o mercado financeiro exige de uma blockchain
Por Luísa Pires · Publicado em
Capacidade deixou de ser o gargalo das blockchains. O teste que ficou é mais duro: entrar na hora certa, em ordem previsível, sem entregar a sua intenção ao mercado antes da execução.
Durante anos, toda discussão sobre blockchain servir ou não ao mercado financeiro terminava no mesmo lugar: quantas transações por segundo. Era uma pergunta justa, porque sem capacidade nada mais importa — uma corretora não opera numa rede em que enviar uma ordem custa caro e demora.
Essa conversa acabou. A capacidade agregada das blockchains cresceu mais de 100 vezes em cinco anos, e sistemas em produção hoje processam dezenas de milhares de transações por segundo. O gargalo saiu de cena.
O que ficou é mais difícil de resolver, e o investidor brasileiro tem uma vantagem rara para entender por quê: ele convive há anos com uma infraestrutura de pagamento que resolveu exatamente esse problema. O Pix não impressiona por volume. Impressiona porque a transferência cai quando você espera que caia, a qualquer hora, sem que você precise torcer. Essa é a qualidade que o mercado financeiro exige — e ela tem nome: previsibilidade.
Chegar rápido não é chegar na hora
Capacidade diz quanta coisa a rede aguenta. Não diz quando a sua transação entra.
Em finanças, quase tudo só funciona dentro de uma janela específica. Num pagamento do dia a dia, um segundo de incerteza não faz diferença. Num livro de ofertas, faz toda. Se a sua ordem de cancelamento chega tarde, alguém negocia contra um preço que já não vale — e você paga a diferença. O formador de mercado sabe disso, e se protege do único jeito que pode: alargando o spread. O custo da imprevisibilidade não fica com quem atrasou. Fica com todo mundo que opera naquele mercado, em forma de preço pior.
Previsibilidade, na prática, se decompõe em duas garantias: a de que a sua transação vai entrar e a de em que ordem ela vai entrar.
A primeira: conseguir entrar
Antes de discutir ordem, há uma pergunta mais básica — você consegue submeter a ordem?
Imagine que a B3 sorteasse, a cada segundo, um participante qualquer para decidir quais ordens entram no sistema naquele instante. Não importa quão boas sejam as regras de prioridade depois disso: quem controla a porta tem poder de mercado sobre todo mundo que precisa passar por ela.
É esse o problema que os projetistas de protocolo atacam quando falam em resiliência. A meta deixou de ser "sua transação entra em algum momento" e passou a ser "se a transação válida chegou a tempo, ela entra agora". A diferença entre as duas frases é a diferença entre um sistema que serve para enviar dinheiro e um que serve para operar.
Uma das linhas de pesquisa reserva parte de cada bloco para transações que chegaram por outros caminhos da rede, de modo que exista mais de uma porta de entrada. O objetivo é que o espaço no bloco funcione como infraestrutura compartilhada, com várias rotas, e não como uma fila única com um porteiro. Exige protocolos mais complicados do que os que rodam hoje em produção — mas é o que separa uma rede que aguenta pressão de uma que só funciona em dia calmo.
A segunda: a ordem em que as coisas acontecem
Em boa parte das blockchains, as transações não são processadas uma a uma. Elas são juntadas em blocos, e quem monta o bloco tem margem para decidir o que entra e em que sequência.
Para muita aplicação, isso é irrelevante. Para mercado, é o jogo inteiro: a ordem determina quem tem prioridade, que preço cada um recebe e se a execução foi justa. Pior — quem controla o próximo bloco consegue reagir às transações antes de todo mundo.
No mercado cripto isso tem nome, MEV, e costuma ser explicado pelo ataque "sanduíche": alguém vê a sua ordem pendente, compra antes para empurrar o preço, deixa a sua ordem executar mais caro e vende logo depois, embolsando a diferença. Mas a versão que interessa ao investidor institucional é mais simples de enunciar: quem enxerga o fluxo antes dos outros decide antes dos outros.
Quem acompanha mercado tradicional reconhece o problema na hora, porque ele não nasceu com a cripto. É a mesma assimetria de sempre, entre o intermediário que vê o fluxo de ordens e o cliente que só vê o resultado. Se a versão onchain não oferecer garantia de ordenação, ela não terá corrigido nada — terá apenas trocado o nome do intermediário.
O caminho que está sendo construído é o de regras explícitas: ordenação determinística por taxa de prioridade, ou regras próprias definidas pelo local de negociação. Os mecanismos ainda estão em pesquisa ativa. O princípio, não: é o mesmo da prioridade preço-tempo que a B3 aplica há décadas — o participante sabe de antemão como a sua ordem será tratada.
As duas garantias precisam andar juntas. Uma regra de ordenação justa não serve de nada se um lance de leilão ou uma liquidação puder ser atrasada antes de a regra ser aplicada. E entrar na hora certa vale pouco se ninguém consegue prever o que acontece depois que entrou.
A terceira: não entregar a sua intenção
Uma ordem diz o que você sabe. O tamanho e a direção revelam se um fundo está montando ou desmontando posição. Se essa informação vira pública antes de a ordem terminar de executar, o mercado se move contra você — e a execução sai pior.
Aqui há uma particularidade incômoda das blockchains: muitas expõem as transações pendentes antes de confirmá-las. Em outras palavras, a sua intenção fica visível exatamente na janela em que ela ainda pode ser explorada.
O que o mercado precisa, então, é de privacidade antes da execução — mesmo quando privacidade depois da execução não for possível nem desejável. Depois que o negócio fecha, as regras podem mudar: um mercado público publica o registro inteiro; um banco mostra só às contrapartes e ao regulador. Quem não vê tudo ainda assim consegue verificar que as regras foram cumpridas.
As linhas em desenvolvimento passam por cifrar o conteúdo da transação até que um prazo vença ou que um comitê confirme que o lugar dela no bloco já está definido. Quando o mercado enxergar, já será tarde para passar na frente.
A distinção é a mesma que o mercado tradicional sempre fez sem precisar nomear: um pregão é transparente sobre o que já aconteceu, não sobre o que cada participante ainda pretende fazer.
Onde isso deixa o investidor
Nada disso é discussão distante de quem tem posição em cripto. É o que determina se o mercado em que você opera vai ter spread apertado ou largo, se a sua ordem de stop vai executar no preço que você definiu, e se o institucional vai trazer para cá o volume que hoje está em outro lugar.
Capacidade foi o primeiro teste, e ele já passou. O teste que ficou é se essas redes conseguem oferecer o que o mercado financeiro já exige da infraestrutura que usa: execução previsível, regra de prioridade clara, acesso que não depende de um porteiro e confidencialidade antes da execução, sem abrir mão da auditoria depois.
Quem investe no Brasil tem uma régua boa para medir isso, e ela está no celular de todo mundo. O Pix normalizou a ideia de que infraestrutura financeira cai na hora, funciona de madrugada e não pede favor a intermediário nenhum. É um padrão alto — e é exatamente o padrão pelo qual essas redes vão ser julgadas aqui.
Este conteúdo é informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento. Ativos digitais envolvem riscos, inclusive de perda do capital investido.
Adaptado de "When throughput is not enough: What financial markets need from blockchains", publicado pela a16z crypto em 03/09/2026. Reescrito em português, com a estrutura do mercado brasileiro como referência de comparação.