Análise

Tokenização: o que os números mostram — e o que eles escondem

Por Luísa Pires · Publicado em

O mercado de ativos tokenizados cresceu 10x em dois anos e as ações tokenizadas, 5x em um. Mas o dado mais revelador não é o tamanho: é quanto desse valor realmente circula.

O mercado de ativos tokenizados passou de US$ 30 bilhões e se estabilizou perto de US$ 34 bilhões. Sem contar stablecoins. Para efeito de comparação, é mais ou menos o tamanho de um banco regional — grande o suficiente para produzir efeito, pequeno o suficiente para caber num rodapé do sistema financeiro global.

O número que impressiona não é esse. É o anterior: em meados de 2024, esse mesmo mercado valia menos de US$ 3 bilhões. Dez vezes menos, em menos de dois anos.

Vale olhar de onde veio esse crescimento, porque a composição conta uma história diferente da manchete.

De que esse mercado é feito

Títulos de dívida — sobretudo do Tesouro americano — respondem pela maior parte do crescimento recente. O apelo é direto: o investidor segura um ativo que já conhece, que paga juros, em formato mais rápido e mais flexível. E a instituição ganha liquidação mais eficiente e movimentação de garantias sem atrito.

Para quem já tem posição em cripto, há um segundo motivo, mais prosaico: título tokenizado é onde colocar stablecoin parada para render juros de mercado monetário sem sair do ambiente onchain.

Em commodities, a concentração é quase cômica. De aproximadamente US$ 5,1 bilhões, cerca de US$ 5 bilhões são ouro. Prata e todo o resto somam US$ 57,6 milhões — 0,01% da categoria. O mercado de commodities tokenizadas é, na prática, um mercado de ouro.

Faz sentido: ouro é padronizado globalmente, não estraga, é fácil de guardar e já era negociado por papel muito antes de existir blockchain. Tokenizar ouro não inventou nada — só trocou o papel pelo token.

A velocidade depende da complexidade, não do hype

Crédito lastreado em ativos chegou a US$ 1 bilhão em 185 dias — o mais rápido de todas as categorias, por larga margem. Venture capital levou mais de sete anos para o mesmo marco.

A diferença não é de interesse do mercado. É de complexidade: quanto mais simples a estrutura de propriedade, mais claro o preço e mais direta a demanda, mais rápido o ativo migra. Estruturas com prazos longos, cláusulas complicadas e exigência regulatória pesada demoram — e vão continuar demorando.

É um contraponto útil para quem espera que "tudo vai ser tokenizado em três anos". Vai, mas não ao mesmo tempo, e a ordem é previsível.

O dado que muda a conversa

Aqui está o número que quase ninguém cita, e que é o mais importante do conjunto.

Títulos de dívida são a maior categoria do mercado tokenizado, com cerca de US$ 15,2 bilhões. Desse total, apenas 5% — algo como US$ 800 milhões — está efetivamente sendo usado dentro de aplicações onchain. Metais preciosos têm taxa parecida. O resto está parado: emitido na rede, registrado na rede, e nada mais.

Compare com resseguro, uma categoria minúscula de US$ 362 milhões, em que 84% do que foi emitido está em uso. Ou com crédito privado, em 33%.

A explicação é simples e desconfortável. As categorias com maior uso foram desenhadas desde o início para funcionar dentro do ecossistema onchain. As maiores — títulos e ouro — foram desenhadas para fazer um ativo conhecido ficar mais fácil de guardar e transferir, sem mudar nada no que ele é.

Ou seja: a maior parte do que hoje se chama de tokenização é, na verdade, digitalização. Mover o registro para uma blockchain sem destravar o que uma blockchain tem de diferente. Um índice da Pantera Capital que mede o quanto cada ativo é "nativamente onchain" coloca mais de três quartos deles na faixa mais baixa.

Isso não é crítica ao mercado — é medida de maturidade. A infraestrutura para compor esses ativos existe. Os ativos existem. A integração entre os dois é que mal começou.

Ações tokenizadas: a categoria que virou a chave

Ações tokenizadas saíram de US$ 329 milhões para cerca de US$ 1,7 bilhão em doze meses — mais de 5x, uma das categorias que mais crescem.

Mas o gráfico acima conta algo melhor que o tamanho: de que é feito esse crescimento. Há um ano, quase 80% do mercado era ação ligada a cripto — empresas do próprio setor, compradas por gente do próprio setor. Hoje são 21%.

O espaço foi ocupado por ativos que não têm nada a ver com cripto: uma cauda longa de centenas de papéis menores (35%), ETFs e índices (17,3%), IA e semicondutores (15,5%) e grandes empresas de tecnologia (10,6%). A categoria de IA e chips saiu de menos de US$ 1 milhão para 15,5% do mercado em um ano.

E o movimento não é só de estoque. O volume mensal transferido chegou a US$ 9,22 bilhões em junho, contra US$ 53 milhões um ano antes — mais de 170 vezes. Esse número mede movimentação real: negociação, transferência entre carteiras, depósito como garantia.

A infraestrutura institucional acompanhou. A DTCC — que custodia cerca de US$ 114 trilhões — processou suas primeiras operações em produção de títulos e ações tokenizados. A controladora da Bolsa de Nova York anunciou uma joint venture para oferecer ações tokenizadas. A Coinbase passou a oferecer ações americanas tokenizadas 1:1, com direito a dividendos, para clientes fora dos EUA.

Agora, o banho de água fria

Todo esse crescimento parte de uma base minúscula, e é importante enxergar a escala real:

MercadoTamanho globalTokenizadoParticipação
Títulos de dívidamais de US$ 140 tri~US$ 15 bi0,01%
Açõesmais de US$ 100 tri~US$ 1,5 bi0,001%
Ourodezenas de trilhões~US$ 5 bimenos de 0,02%

Crescer 10x partindo de quase nada continua sendo quase nada. Quem usa os percentuais de crescimento como argumento de investimento está usando a métrica errada — e isso vale para qualquer ativo, não só para tokenização.

As projeções para 2030 variam bastante: McKinsey trabalha com US$ 2 a 4 trilhões, BCG e Ripple com US$ 9,4 trilhões, a Ark Invest com US$ 11 trilhões, e o Standard Chartered projeta mais de US$ 30 trilhões até 2034.

A distância entre US$ 2 trilhões e US$ 30 trilhões parece desacordo sobre adoção, mas é quase toda sobre definição: cada casa inclui categorias diferentes na conta — algumas somam stablecoins e depósitos bancários, outras só bonds, fundos e ações. Quando alguém citar uma dessas previsões para você, a pergunta certa não é "quanto?", é "contando o quê?".

Fato: todas as projeções apontam para expansão significativa. Interpretação nossa: a direção é consistente; o número específico de qualquer uma delas não deve ser usado como base de decisão.

E no Brasil?

O movimento brasileiro seguiu um caminho próprio, e ele é mais concreto do que parece de fora.

A CVM organizou o assunto ainda em 2022, com o Parecer de Orientação 40, que separou tokens de pagamento, de utilidade e os que são valores mobiliários — e deixou claro que tokenizar, por si, não exige registro prévio. Em 2023, o Ofício Circular CVM/SSE 4 tratou especificamente dos tokens de recebíveis, que foi por onde a tokenização brasileira de fato começou a girar.

Enquanto isso, a tokenização aqui encontrou um caminho que não depende de nenhuma promessa futura: duplicatas escriturais, com adoção obrigatória escalonada de janeiro de 2026 a janeiro de 2028, conforme o porte da empresa. Não é glamouroso como ação tokenizada — é infraestrutura de crédito, e é onde o Brasil tem volume de verdade.

O mesmo padrão dos dados globais se repete por aqui: as categorias que andam primeiro são as de estrutura simples e demanda existente. Recebível é exatamente isso.

O que levar deste conjunto de números

Primeiro: o mercado é real, cresce rápido e ainda é pequeno. As três coisas ao mesmo tempo.

Segundo: a maior parte do que existe hoje é registro digital, não ativo programável. A promessa da tokenização — ativos que se combinam, servem de garantia e circulam sem intermediário — está muito mais adiante do que os números de crescimento sugerem.

Terceiro, e o que mais importa para quem investe: quando alguém apresentar um ativo tokenizado a você, a pergunta útil não é qual blockchain ele usa. É o que esse token te permite fazer que o ativo original não permitia. Se a resposta for "nada, mas fica registrado numa blockchain", você está diante de digitalização — o que não é ruim, mas também não justifica prêmio nenhum.


Este conteúdo é informativo e educacional. Não constitui recomendação de investimento. Ativos digitais envolvem riscos, inclusive de perda do capital investido.

Combina e resume "The tokenization boom in 7 charts" (23/05/2026) e "3 (more) charts on the tokenized stocks boom" (25/07/2026), ambos publicados pela a16z crypto e de autoria de Robert Hackett, com dados de RWA.xyz. Os gráficos foram refeitos na identidade visual da LP Crypto. O contexto brasileiro é apuração própria.